
ESPIRITUALIDADE E RELIGIÃO
Encerrada a Jornada BB-21, iniciativa sócio-educacional/cultural do BB-Gepes Natal, em que a participação do Sindicato dos Bancários do RN foi fundamental para a consecução de alguns eventos, podemos realizar um balanço positivo, sobretudo, das palestras realizadas pelos professores das Universidades públicas. Uma das conferências mais prestigiadas foi a do Professor Geraldo Pimentel (Gegê), fisioterapeuta e educador físico. De uma forma leve e pedagógica, Gegê pode socializar parte do seu vasto conhecimento, transmitindo saberes necessários para uma melhor convivência com as agruras da modernidade.
Contudo, em suas palestras Gegê salienta a importância do exercício da espiritualidade. Para o professor tal “dom” pode ser materializado por meio de atitudes simples, tal como a de conferir elogios aos colegas de nossa convivência hodierna. Todavia, parece ser comum confundir espiritualidade com religião. É justamente neste ponto em que há a maior quantidade de equívocos. Pode, então, um agnóstico manter em alta sua espiritualidade? A religião é um passaporte necessário para o engendramento de um convívio espirituoso?
Em verdade, o pensamento religioso em geral exige um ato de fé num ser supremo que a todos conduz. Há várias formas de se conviver e professar uma religião e, conseqüentemente, inúmeras maneiras de estabelecer o vínculo pessoal com a entidade superior, no caso do ocidente costumamos denominar nosso ser supremo por “Deus”. Há os que vêem em Deus um ente que vigia e pune, tal como um pai implacável e justo, mas, ao mesmo tempo, atencioso e afetuoso. Outros enxergam em Deus as características maternas, do eterno amor e da dedicação ilimitada aos filhos. Há a ainda os que preferem encarar o ser supremo com as propriedades de uma divina criança, inocente, amorosa e incapaz de maledicências. Evidente que tais traços encerram um tênue liame com a espiritualidade, sobretudo, porque exigem um exercitar constante do pensamento abstrato, intencional e teleológico. Mas, isto resume o que o é de fato a espiritualidade. Creio que não.
A espiritualidade é a capacidade do homem de admirar/relacionar o belo, o fantástico e o lúdico. Como Marx, bem aponta nas páginas de O Capital o que difere o pior arquiteto da melhor abelha é a capacidade de representação do homem, sua intencionalidade, a teleologia de seus atos, a capacidade de mensurar, no nível do intelecto, a relação de causa e efeito. Eis a diferença marcante entre a ação humana e a atividade do animal. Em outras palavras, o que nos distingue dos demais seres do mundo animal é a nossa capacidade de exercitar a nossa espiritualidade - fazer a História.
A galinha, por exemplo, não é capaz de imaginar/distinguir que a porta aberta de seu poleiro pode lhe conferir a liberdade. O homem, por seu turno, pode engendrar os contornos sócio-históricos capazes de engradecer a condição humana, por meio de uma formação social comunal-solidária. Entanto, para tal empreendimento, o homem em seu sentido genérico deve perpetuar à espiritualidade radical, reconhecendo a construção coletiva como a única via de superação de suas necessidades, para além da óptica do individualismo e da concorrência interpessoal como alavancas para um sucesso efêmero e desprovido de substância emancipatória.
A todos um ano novo com bastante espiritualidade, amor e solidarismo!
Júlio Ramon Teles da Ponte
Funcionário do BB, Doutorando em Ciências Sociais – UFRN.